Sob a luz dos holofotes

Com apenas 22 anos, a carioca de cabelos cacheados Lua Blanco é vocalista da banda pop rock Lágrima Flor, apresenta semanalmente os desenhos animados da TV Globinho e ainda encontra tempo para estrelar a adaptação da Broadway “O Despertar da Primavera”. Lua cursa Letras na PUC-RJ, e foi na faculdade que a neta do compositor Billy Blanco - conhecido nome da Bossa Nova nacional - encontrou a maior parte dos companheiros de banda. Com uma seleção de canções em inglês e português, a Lágrima Flor espera crescer dos palcos do Rio para todo o país. Nesta entrevista a cantora, atriz e apresentadora contou um pouco sobre sua carreira e a agitada rotina artística. - Por: Paulo Marcondes - @pablomarcondez - Junior Bellé - @jrbelle

Aos 22 anos você já atuou em novelas globais, é o front de uma banda pop e estrelou um musical da Broadway. Sobra tempo para se embebedar com amigos e se divertir um pouco ou o trabalho é sua verdadeira diversão? Sempre tem que sobrar um tempinho pra relaxar, não? Mas, na verdade, ainda estou aprendendo a administrar o meu tempo direito. Adoro sair com os amigos, mas tem horas que tenho que recusar e ir para casa dormir, pois o dia seguinte será muito corrido. De qualquer forma, o trabalho também é uma grande diversão. Adoro o que faço!

Você é uma atriz que canta ou uma cantora que atua? Sou uma cantora que quer muito atuar! (risos) Sempre cantei, desde pequena, e sonhei em fazer isso da vida. De poucos anos pra cá que me apaixonei por interpretação e me propus a seguir essa linha também. Mas sei que ainda tenho muito para aprender e estudar, assim como no canto, mas essa segunda já flui naturalmente pra mim.

Filha de Billy Blanco Jr e neta de Billy Blanco: esse legado artístico está no sangue ou seu trabalho é bastante diferente dos que eles produziram anteriormente? O legado está no sangue, com certeza. Tenho muitas influências musicais e artísticas dos dois, mas na prática realmente a linha que sigo é bastante diferente. O meu avô é sambista e compositor de bossa nova. Eu canto pop rock e amo uma guitarra distorcida. Rola uma diferença, mas ainda busco muito minha inspiração e motivação no meu pai e avô.

Você é uma das apresentadoras da TV Globinho, está em cartaz com “O Despertar da Primavera” e é vocalista da banda Lágrima Flor. Conta um pouquinho da sua rotina. A TV Globinho, na verdade, é a que menos toma o meu tempo, pois só gravo a cada 15 dias. O que mais me ocupa é o “Despertar”, pois faço de quatro a cinco apresentações por semana. Acordo cedo todo dia para ir pra faculdade, onde estou me formando em Letras, na PUC-RJ. À tarde, quando não tem ensaio com a banda, trabalho no livro que estou traduzindo para o meu estágio. Depois, o resto do dia passo no teatro. Saio tarde de lá e quando tem show da banda vou direto do teatro para o local do show. Os shows são sempre de madrugada por causa do horário da peça. Finais de semana são para repor o sono e estudar.

O que é mais complicado: abrir algumas portas na televisão ou construir carreira no cenário independente da música? Tenho enfrentado mais dificuldade no cenário independente da música, na verdade. O importante é ter público, mas o público só é construído se tem pessoas desconhecidas assistindo ao seu show, que, por sua vez, só acontece se os produtores e organizadores apostarem no seu som e arriscarem botar uma banda desconhecida pra tocar em seu evento. O que é raro. Tenho torcido para que as portas que têm se aberto pra mim na televisão resultem, também, em portas abertas na música. Bem ou mal, uma coisa acaba puxando a outra.

A Lágrima Flor é uma banda pop, com uma pegada de violino bem interessante, mas que não me lembra Louise Attaque nem Les Cowboys Frigants, que caracterizaram seus sons a partir do violino. Qual a inspiração para os nuances da Lágrima Flor? Sempre curtimos o sonzinho rock com vocal feminino, como Avril Lavigne e Paramore. Com o violino, encontramos nosso diferencial em meio a essas referências. Passamos a nos inspirar em bandas com violino como The Corrs e Yellowcard. Tentamos pegar um pouco de todos eles.

Quais são suas inspirações para se construir como artista? Essa é uma pergunta complexa. Tomaria muito mais tempo para respondê-la por completo. Mas a verdade é que eu ainda estou me construindo como artista. Tenho sido exposta a tantas coisas novas nessa fase na minha vida que todos os meus conceitos estão sendo constantemente revistos e reformulados. Prezo pela autenticidade acima de tudo, e me regulo quando vejo que fugi disso, por isso não quero falar sem ter certeza. Mas sei que estou no caminho certo, vou me achar.

As composições da Lágrima Flor seriam trilha sonora para qual filme? Qualquer um com uma pegada jovem e moderna. Vejo muito as nossas músicas como trilhas de filmes e novelas.

Vocês possuem músicas em português e em inglês. Certa vez, perguntei ao pessoal do Vanguart o motivo para cantar em vários idiomas e a resposta foi que este é um diferencial. Esta é a mesma razão que leva a Lágrima Flor a optar também pelo inglês? Para nós, ser um diferencial é o resultado, mas não foi a intenção inicial. Eu fui alfabetizada em inglês e criada em volta da língua. Os outros membros da banda, fora o baterista Daniel, são estudantes de Letras também, e fluentes no inglês. Nos conhecemos na faculdade e, muitas vezes, só falávamos em inglês. Enfim, é uma língua muito presente na nossa realidade. Quando o trabalho autoral começou, só saiam músicas em inglês. Tivemos que tomar a decisão de ter faixas em português e nos forçar a pensar na nossa língua, para que as coisas começassem a se equilibrar e ficar bilíngues. Eu amo cantar em inglês.

No MySpace de vocês há um link para baixar as músicas. Vocês são a favor da flexibilização dos direitos autorais, com medidas como o creative commons, para que seus fãs possam baixar legalmente as músicas da Lágrima Flor na internet? Somos, com certeza. Ainda mais porque o nosso objetivo no momento é divulgar as nossas músicas e vê-las tocando nos iPods de todo mundo, então se esse é o caminho para que as pessoas tenham acesso à nossa música, eu apoio.

Aproveitando o ensejo: como você percebe esse cenário de mudanças na música, do CD morrendo como formato e toda essa discussão (e em alguma medida, perseguição) sobre downloads gratuitos, democratização da informação com a internet? É uma pena a morte do CD, porque é um formato que eu amo muito ainda. Mas entendo que faça parte do processo natural de evolução tecnológica, onde toca-discos já não são a forma predominante de ouvir música. Agora, também me preocupo com o quanto os downloads gratuitos podem desvalorizar o trabalho do músico, que vira cada vez mais descartável. Mas também tem aquela questão: o objetivo não é que as pessoas ouçam as músicas? Se estão baixando, é porque gostam. Acho que isso por si só já é o retorno que esperamos.

Além de talento, estudo e persistência, o que você considera essencial para correr atrás de uma carreira como atriz ou música? Saber quem você é. Conhecer bem a sua identidade como artista e, o mais importante, ter algo a dizer. Por isso volto a dizer que é o que estou construindo. Tenho certeza de que é algo essencial para eu vencer e alcançar meus objetivos e não cair na irrelevância.

Que recado você deixaria para os leitores que pretendem enveredar para uma carreira artística? Estudem! Carinha bonita por si só não leva a lugar nenhum; pelo menos a nenhum lugar duradouro. A base precisa ser construída, sem o deslumbre do glamour que pode vir dessa profissão. Isso é só resultado, não pode ser nunca o objetivo.

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