Isolado naquela salinha, cercado de livros e anotações, hipnoticamente entretido com a máquina de escrever, um cigarro e uma bebida logo ao lado. Foram muitos meses de dedicação e do constante barulho daquela antiga Remington, que ainda ecoavam pela sala em tec, tec, tec... plin! Mas estavam prestes a cessar. Estava pronta sua obra. Digitou o ponto final e recostou-se na cadeira com aquele sentimento de gozo pelo trabalho terminado.
Mas o trabalho não estava tão terminado assim. No dia seguinte, com o original de seu livro embaixo do braço começou o périplo atrás de editoras, de porta em porta, por telefone, correio... sem obter resposta positiva. Decidiu então publicar por conta própria, fez alguns orçamentos em gráficas e descobriu que precisaria de muito mais dinheiro do que tinha para executar seus planos. E foi assim que, triste e um tanto desanimado, recolheu seu livro na gaveta até que conseguisse resolver a situação, sabe-se lá quando.
Esse seria – e certamente foi - o fim trágico de muitos bons livros até alguns anos atrás. Mas hoje, graças às novas tecnologias, escritores de primeira viagem ou experientes, desconhecidos ou famosos, estão conseguindo levar ao público suas obras, independente de possuírem uma editora ou muito dinheiro para financiar os altos custos da publicação de um livro. Uma das grandes aliadas desse pessoal é, vejam só, a internet. Não é mais novidade a revolução que a grande rede tem causado nas relações entre as pessoas. Há muito ficou pra trás o tempo em que se esperava o jornal noticiar os fatos, a televisão ditar a moda ou as rádios tocarem sua música preferida. Hoje você consegue ver, ouvir e se informar sobre o que quiser na hora que achar mais conveniente. As possibilidades são infinitas, interativas e simultâneas. Já não basta mais ser um mero receptor de informações, pode-se criar e divulgar qualquer conteúdo, de uma maneira ágil, fácil e amigável. E é o que muita gente anda fazendo, afinal, pode-se (praticamente) tudo e a qualquer momento.
Essa nova realidade on-line tem sido chamada de Web 2.0, ou Internet 2.0, e chegou para revolucionar a relação “produtor – consumidor de conteúdo”. Mas não se assuste, não se trata de alguma nova versão de internet, ela continua a mesma de sempre. Falamos aqui de uma nova forma de entender e utilizar a rede, uma forma multipolarizada, sem hierarquia. Estas são as partes boas, as ruins deixemos para outro momento. Agora todos somos potenciais criadores de conteúdo e tendências em qualquer setor. E como esse novo mundo salvaria a carreira do nosso amigo escritor? Da mesma forma que está viabilizando a carreira de tantos músicos, bandas independentes e vários outros artistas por aí: tirando atravessadores, como as gravadoras e editoras da jogada, deixando o criador frente a frente com seu público, numa relação muito mais íntima e direta. E são muitas as ferramentas que se pode lançar mão na hora de publicar e divulgar o seu próprio trabalho pela internet. São redes sociais, blogs, microblogs e uma infinidade de outras opções, geralmente gratuitas. É só ser criativo, escolher bem seu público e mantê-lo cativo. As letras por trás do mouse
Gabriela Gomes, gaúcha, publicitária de formação e escritora de coração, mantém o blog “A Cronista” (acronista.blogspot.com), que no início 2008 foi vencedor do Prêmio de Criatividade Jovem da Editora Abril. Em parceria com a Nestlé,o prêmio também ficou conhecido como 2ª Volta ao Mundo Negresco. De acordo com Gabriela, utilizar as ferramentas de web 2.0 foi fundamental para que conseguisse uma votação expressiva e ganhasse o prêmio: “Na época do prêmio, meu blog chegou a ter 190 visitas/dia – o que para um blog de literatura de alguém desconhecido, que as pessoas sequer sabem de onde saiu – é incrível”.
Apesar da visibilidade, da existência de material e da vontade, Gabriela ainda não tem previsão de quando publicará um livro de papel. A liberdade de conteúdo e formato do blog e do twitter ainda são plataforma preferida: “utilizo o blog para crônicas, contos, cenas, poesia. O twitter (@gabisouzagomes) para escrever microcontos, brincar despretensiosamente, registrando meus insights em até 140 caracteres”. E ressaltou que “o feedback positivo do público vai aos poucos levando a crer que é possível tentar um livro de papel, das formas tradicionais. As pessoas vão pedindo e você se depara com novas possibilidades”.
Se fosse há alguns anos atrás, Caroline Guimarães Gil estaria em maus lençóis. A publicitária de 22 anos que mora e estuda Psicologia na pequena cidade de Umuarama, noroeste do Paraná, também é escritora. Faz poesia, peças de teatro, contos e crônicas, que são publicados em seu blog Conjugando Verbos (conjugando-verbos.blogspot.com.br). Ela também escreve semanalmente numa página cooperativa de escritores locais para o jornal da cidade, a Culturanja, que também sai publicada no blog de mesmo nome (culturanja.blogspot.com) e também é uma assídua gorjeadora no twitter (@caroline_ggil)
Para uma jovem garota de uma pequena cidade do interior do Paraná, Caroline executou uma façanha digna de aplausos: investiu três anos de muitas anotações para escrever o seu primeiro romance, intitulado Intra Uterino. Mas depois de um périplo sem sucesso entre as gráficas da cidade e algumas tentativas com editoras, ela estava quase mandando seu livro pr’aquele lugar: a gaveta. Foi então que a solução chegou pela internet, através de um amigo também escritor. O livro Intra Uterino foi publicado on-line, em formato PDF, na sessão Degustação do site Litteris Online (litteris.com.br). A Litteris é uma editora que publica livros impressos, mas fornece espaço para publicação gratuita de e-books que podem ser baixados também gratuitamente, serviço que também pode ser encontrado em sites como o Scribd (scribd.com/).
Para Caroline a internet foi importante no sentido de se conectar com outros escritores, artistas locais e do resto do país, o que numa cidade como Umuarama, sem uma vida cultural muito rica, seria bastante difícil de acontecer sem a ajuda on-line. Para ela, “estar inserida num grupo de artistas é inspirador, troca-se influências e isso estimula a criar mais e melhor”.
Fábio Brazil, poeta, produtor cultural e professor de Literatura e História da Arte, já foi mais longe na interatividade. Seu livro Bola da Vez, uma série de contos interligados que compõem o contexto de um assassinato no bairro paulistano do Bexiga, foi inteiramente aberto para que, antes de finalizado, os frequentadores de seu blog (livro-bola-da-vez.blogspot.com) e interessados em participar da “operação” pudessem opinar. Era possível dar pitacos e até mesmo reescrever os trechos dos contos que não agradassem. Posteriormente, o autor analisaria cada sugestão e acataria aquelas que achasse interessante.
O livro de Fábio ganhou corpo físico graças a outra forma de se viabilizar a carreira artística: os editais públicos. A Bola da Vez foi selecionado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, o ProAC (cultura.sp.gov.br) e já está pronto, aguardando para entrar no mercado. Existem várias formas de se conseguir ajuda do estado para fomentar a carreira artística, a mais conhecida delas são os editais das leis de incentivo municipais, estaduais e federais, tais como a Lei Rouanet ou o Fundo Nacional da Cultura. Outra possibilidade é a bolsa de criação literária, que paga ao autor selecionado um salário mensal por um período pré-determinado e, ao final do prazo, ele tem de entregar o livro que se propôs a fazer no projeto.
Estes editais podem ser facilmente encontrados na internet e, na grande maioria das vezes, os projetos têm inscrição on-line, no próprio site do patrocinador que podem ser empresas como a Petrobras (hotsitespetrobras.com.br/ppc/index.html), o poder público, através de fundações como a Funarte (funarte.gov.br), das secretarias, Ministério da Cultura ou até mesmo a iniciativa privada.
Existem outros exemplos de escritores que, de alguma forma, viabilizam sua carreira através do uso criativo da internet e dos recursos da Web 2.0. Alguns nascem on-line, outros nascem no papel e usam o virtual para otimizar seu contato com o público. É o caso de André Vianco que, depois de muitos ‘nãos’ das editoras, usou todo o dinheiro que tinha - oito mil reais de indenização trabalhista (ele estava desempregado na época) - e publicou seu primeiro livro, intitulado Os Sete, uma literatura de ficção sobre vampiros na cidade de São Paulo.
Hoje Vianco publica através da Editora Novo Século e, em território nacional, só perde em vendas para a série Crepúsculo de Clive Baker, desbancando Stephen King e outros grandes nomes do terror. É um dos poucos escritores nacionais que podem se gabar de viver integralmente da produção de literatura ficcional, sem fazer bicos em outras áreas como traduções ou trabalhos jornalísticos. A internet para ele é um instrumento importantíssimo de trabalho, em seu site (andrevianco.net), além de manter contato direto com seus admiradores, conquistar novos parceiros de negócio, publica alguns contos, vende seus livros (que já somam 15 volumes) e camisetas. Mas se você não tem paciência e nem vontade de criar um blog ou um site pessoal para divulgar os seus escritos, existem bons sites coletivos de escritores como o Recanto das Letras e o Garganta da Serpente. Ambos os sites são gratuitos e qualquer pessoa pode ler os textos que lá estão publicados, e para publicar algo por lá é necessário apenas criar um usuário e seguir as instruções, bastante simples, para ter seus textos estampados na internet. Só para ter uma ideia, o Recanto das Letras já possui mais de 64 mil escritores cadastrados, e assustadores dois milhões de visitantes por mês.
Existem também inúmeros concursos literários promovidos por editoras, empresas, secretarias de cultura e várias outras agremiações literárias pelo país. Alguns premiam com dinheiro, outros com o direito de ter o texto publicado em antologias de contos, crônicas ou poemas. Perguntadas sobre a utilidade dos sites de escritores e também a desses tradicionais concursos literários, Caroline e Gabriela compartilham da mesma opinião: estas publicações e os concursos aumentam o currículo, porém não são pedra fundamental na carreira de escritor. “Qualquer forma de ser lido e avaliado, que gere um feedback sobre a qualidade dos meus textos, me inspiram e encorajam a continuar, me mostram onde e como melhorar”, disse Caroline.
No final das contas, com tantas novas opções de trabalho e de divulgação, está se criando uma nova legião de ávidos leitores e escritores. A experiência da grande rede é essencialmente leitura, o que ajuda a quebrar o tão famoso “medo da leitura”, um pouco arraigado na cultura nacional. Mas ajuda, principalmente, a trazer o escritor mais pra perto do público, transformando a experiência literária em algo mais interativo e sedutor – não que duvidemos do poder de sedução de um bom livro de papel.
A forma de se veicular informação vem sendo alterada ao longo dos anos. De Gutenberg à Fátima Bernardes muita água rolou debaixo dessa ponte. A única limitação que existe é a criatividade de quem divulga, afinal os limites da Web 2.0 são definidos pelos próprios usuários e suas necessidades. “Vejo os antigos escritores migrando para a plataforma on-line. E alguns dos novos escritores, fazendo o caminho inverso: migrando do virtual para os livros de papel. No mais, todos acabarão se encontrando no meio do caminho”, concluiu Gabriela.
Então, nosso amigo escritor desengavetou o seu livro, inspirado e confiante, era um universo infinito de possibilidades que indicavam que sua obra seria lida. Para ele não importava de que forma, mas suas ideias finalmente encontrariam abrigo em outras cabeças e cumpririam sua boa sina. Sorriu largamente e deu o próximo passo, com o pé direito.
Box (montar uma tabela para diminuir o espaço): Baixe os livros, azucrine, leias os blogues, siga no Twiiter, avacalhe, divulgue e participe Gabriela Souza Gomes: Blog: acronista.blogspot.com Twitter: @gabisouzagomes
Caroline Guimarães Gil: Blogs: conjugando-verbos.blogspot.com.br e culturanja.blogspot.com Baixar o Livro: litteris.com.br/degustacao/Caroline Guimarães Gil.htm (sim, com os espaços) Twitter: @caroline_ggil
Fábio Brazil: Blog: livro-bola-da-vez.blogspot.com/ Site: caleidos.com.br
André Vianco: andrevianco.net Twiiter: @andrevianco
Tiago Lobão (este repórter que vos escreve é também um dos autores desconhecidos citados no texto): lobservando.blogspot.com culturanja.blogspot.com nevilton.com.br
Junior Bellé (nosso editor também tem seus momentos Hunter Thompson): Blog e livro: gafanhotojr.blogspot.com Twitter: @jrbelle
Serviços e outros site relacionados: recantodasletras.com.br gargantadaserpente.com scribd.com cultura.sp.gov.br hotsitespetrobras.com.br/ppc/index.html funarte.gov.br
Box II: Fábio Brazil: A entrevista da Vez
Paulistano e com 44 anos de idade, poeta desde os 12, formado em Língua Portuguesa e Literatura pela PUC-SP, professor de Literatura e História da Arte há uns 15, dramaturgo e, também, produtor cultural. Em 2007, juntamente com sua esposa e parceira de vários projetos Isabel Marques, fundou o Instituto Caleidos (caleidos.com.br), do qual é diretor. O instituto tem como missão promover relações éticas, críticas e criativas entre a Arte, o Ensino e a Sociedade.
A criatividade e o empreendedorismo de Fábio já renderam muitos bons frutos. Alguns de seus poemas foram transformados em espetáculos de dança, fundou um colégio, se apaixonou pelas palavras, fez muitos amigos, ganhou prêmios, teve vários projetos na área Pedagógica e Cultural colocados em prática e nunca deu tarefa de casa para seus alunos de literatura. Enfim, está fazendo sua parte para um mundo melhor e mais feliz.
Atualmente é co-diretor do espetáculo de dança “Ares Familiares”, com direção de Isabel Marques, premiado pelo ProAC 2008. E acabou de escrever o livro “A Bola da Vez”, cujo processo de criação foi muito original. Na entrevista abaixo, podemos conhecer mais sobre o projeto “Bola da Vez” e do que esse artista inquieto pensa sobre a vida de escritor nos tempos de internet.
Conte-nos sobre a sua história, sua formação profissional, desde quando escreve, se já teve outros livros publicados... enfim, fale sobre o caminho que te trouxe até aqui, hoje, com um livro escrito e numa entrevista com a Revita UP!. Fábio: O livro que estou lançando agora em novembro, o Bola da Vez, é uma estréia em prosa numa história toda ela voltada para a poesia. A paixão pela escrita veio cedo. Mas que diabo de profissão é essa? Aliás, é profissão? Como se vive sendo isso? Claro que até agora ainda não respondi essas perguntas, mas também não consegui fazer nada muito diferente disso. O caminho do 'juntar uma grana, publicar e vender para os amigos e parentes' nunca me atraiu, sempre achei que seria um passo em falso. Assim, a gaveta dos poemas tornou-se uma pasta no HD. Fui professor enquanto tive prazer em ensinar Literatura. Entrei em alguns Concursos Literários, ganhei um cujo prêmio era uma antologia coletiva e desisti deles também.
Concorri com um projeto de romance - o Bola da Vez - no ProAC da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e fui contemplado em 2008. Publico minha estréia agora em novembro. Mas e os poemas da HD? Continuam aqui comigo. Vão sair em livro quando chegar a sua hora.
A sua relação com a internet é antiga? Como e quando você percebeu o poder de promover seu próprio trabalho, se aproximar e fidelizar o público através dela? Que ferramentas tem usado pra isso e qual é sua opinião sobre essa nova relação, muito mais próxima entre escritores e o público que ela possibilita? Fábio: A internet é um milagre, uma ferramenta fabulosa, um salto irreversível para humanidade... Mas atrás desse lugar-comum se esconde uma vala-comum. Tão perniciosa quanto a censura das ditaduras é o descrédito e a desvalorização da produção do discurso estético por meio da arte. A internet, às vezes tem esse perigoso papel. Sei que essa minha posição não é muito fácil, nem muito simpática, e de toda forma sempre estarei ao lado da ampliação das emissões. Ainda não abri um site ou um blog para os meus poemas. Autor precisa usar a internet comedidamente. Site de poesia para mim é gueto e turminha, mas se eu tenho algum sonho de fato em relação à poesia é que ela saia disso. Publiquei no site a Agência Carta Maior enquanto eles mantiveram o Varal de Poesia aberto. Gostava muito da idéia de ter um poema incomodando ali, fazendo parte da vida daqueles leitores e me parecia e ainda me parece bem mais interessante do que postar num site próprio. No projeto do Bola da Vez, já previa uma série de ações via internet. A principal era abrir o blog - Livro Bola da Vez - por onde articularia três ações fundamentais. A primeira era abrir o processo de criação, abrir a oficina, uma espécie de diário de bordo do romance. A segunda, como o romance é constituído por um mosaico de contos independentes, era submeter os contos á leitura de qualquer interessado. E a terceira e mais ambiciosa é o convite à criação de contos pelos leitores após o lançamento.
O link do blog Livro Bola da Vez viaja junto ao Boletim do Instituto (caleidos.com.br) hoje com 20 mil endereços de todo o Brasil. Os retornos de cada conto me ajudaram a calibrar a escrita e ter uma noção mais exata de seus efeitos e defeitos. Se o retorno era bom e o leitor pedia mais um recebia na hora, só me impus duas regras: nunca deixar alguém ler todos os contos e jamais defender o conto das críticas. Lia, avaliava, relia o conto e mudar aquilo que era pertinente. Saí desse processo escrevendo melhor. O romance propriamente não existe. É o leitor que unindo os contos vai fazendo as emendas e as costuras necessárias para obter o romance. A internet me permite isso, por que não? Por que não oferecer ao leitor uma estrutura que permita não somente a fruição-passiva (leitura simples), mas também a criação autônoma na estrutura que criei?
Você costuma participar de concursos literários? Eles ainda são peças importantes na construção de uma vida como escritor? Fábio: Não gosto de concurso porque não gosto de competição, não sou um atleta da arte. Prefiro os editais das Secretarias de Cultura. Concursos de obras prontas e inéditas - além da competição e do medalhismo - afunilam demais. Fazer projetos, tê-los discutidos por uma comissão que varia a cada edição do edital, ser ou não contemplado, ensinam o artista a organizar suas idéias, construir um projeto maior que a obra - pensar em desdobramentos e contrapartidas - essa é a vantagem dos editais públicos. Concursos são importantes e há muitos que são sérios e comprometidos com a arte, mas não têm a amplitude dos editais.
E além dos blogs, você publica seus trabalhos em sites de escritores como o Garganta da Serpente ou o Recanto das Letras? O que você acha desse tipo de site? Fábio: São sites e iniciativas importantes, a maioria de gente séria, interessada e comprometida com arte. A minha questão se resume à eterna disponibilidade e gratuita dos sites. Ficam ali bons textos, empoeirados de pixels, solitários, gratuitos em todos os sentidos, isso me incomoda. Se queremos que a arte da poesia e da literatura de modo geral se torne um bem sócio-cultural e uma profissão de fato para os artistas, não podemos ficar trabalhando de graça o tempo todo e servindo gratuitamente nosso produtos a um público incerto e desinteressado. Isso não é divulgação, democratização ou popularização da arte, mas, pode ser o seu fim, um discurso inócuo para ninguém. Precisamos pensar nessas coisas chatas e antipáticas se queremos ser profissionais da arte - ou vamos ser amadores para sempre.
Essa explosão de conteúdo online e as maneiras quase infinitas e segmentadas de divulgá-lo tem causado um maior interesse das pessoas em ler, tanto online quanto livros de papel? Fábio: Acho que o saldo é positivo. Sem dúvida há mais pessoas lendo poesia e literatura, temos uma ótima ferramenta de divulgação e a internet é um universo eminentemente textual e a leitura é essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Acho que nem todo livro pode ou deve ir para o meio digital. Há aqueles que sempre serão melhores em papel, aqueles em que será indiferente seu suporte... A passagem do papel para a tela não pode ser inocente, ingênua ou pura transcrição.
Você ainda acha o livro de papel um elemento essencial na carreira de um escritor, ou já é possível ser um escritor 100% online? Fábio: Se estamos falando de escritor como profissão, ainda não conheço nenhum que viva de seu trabalho e seja 100% online. Publicar em papel é sempre um investimento maior em todos os sentidos, você pesa e pondera muito mais a respeito do que está publicando, você simplesmente não pode mais tirar do ar. Quando a internet oferecer possibilidades reais de alguém criar literatura online e viver realmente disso acredito que será levada mais a sério.
Diga o que você vê para o futuro dos novos e antigos escritores, e porque não o dos leitores, considerando todas essas maneiras de interação do público com a obra literária. Fábio: Sonho com um futuro em que as possibilidades de acesso à leitura de bons textos e de sobrevivência para os autores possam estar caminhando na mesma direção. A internet traz mais leitores e autores, isso é em si um avanço. O que precisamos é tornar esse avanço uma ferramenta de transformação social da arte e da leitura, acho que isso cabe à minha e às próximas gerações de autores e leitores.
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