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03 out 2008 Branco no fundo azul
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E agora esse papel branco (digital) no fundo azul do editor de textos, o meu pc só pode estar de sacanagem comigo e a saudades daquele branco, naquele fundo azul só aumenta. De volta a Atenas, a internet e ao cinza, tudo que tenho em mente são as lembranças dos meus dias pelas ilhas gregas, nada mais me comove. Exceto pelo papel branco no fundo azul. Sacanagem.

Já em Atenas, antes das ilhas, ouvia falar de Ios. Fica perto de Santorini – diziam. Dormir e comer é mais barato em Ios e fica perto de Santorini – diziam ainda, alguns. E realmente Ios é uma ilha bacana com suas praias, camping, bares. E fica perto de Santorini, 1 hora de barco, 10 Euros, amanhã de manhã as 5:30. Da manhã. Acordar cedo é bom porque quando seu dia começa não significa que também está acabando, nesses momentos gloriosos em que a tarifa mais barata te obriga, é possível apreciar por duas vezes, no mesmo dia, o espetáculo do crepúsculo, o nascer e o pôr do sol. Acordar bem mais cedo para ir a Santorini foi ainda mais sorte, quando o sol nasceu naquele dia, já nasceu iluminando as cores da top 1 das ilhas gregas. Editor de texto sacana.

Santorini é descepcionante quando se vê pela primeira vez, de perto, pisando a ilha no porto novo, um imenso paredão de pedra, algum comercio e um pequena estrada que te leva até onde os olhos não se cansam. Descrever Santorini agora seria desperdício de tempo, é trabalho para algum tipo de crítico mais iluminado, só no que consigo pensar são as cores, as formas. Sacanagem.

As cores são tantas que se resumem em duas, as formas tão diversas que de longe parece não haver forma e de perto ela pode ser ainda mais abstrata ou reta. Tantas foram as fotos do mesmo telhado, do mesmo mar, mas os olhos não se cansam e você observa tudo como se fosse ali uma espécie de cenário irreal, Santorini parece fake, é fotogênica e faz pose, até que o sol se ponha, mudando as cores da ilha, uma espécie de show de encerramento. O sol se põe e o meu barco parte de volta a Ios, já era noite, Santorini ainda estava lá, mas já não tinha mais aquelas cores. Vou sentir saudades, de Ios, mas vou principalmente sentir falta de Santorini. Esse página já tem algumas letras, mas ainda é uma página branca no fundo azul do meu editor de textos. Sacanagem.

 

 

18 set 2008 As “ilhas gregas” da Grécia!
 |  Categoria: Europa, Fotos, Grécia, Ios  |  Tags: , , , , ,  | 607 Comentários

A tal da “ilhas gregas”, quem nunca sonhou? Estava em Atenas, vida de mochileiro, tempo de sobra, cartão de crédito estourado, contando as moedas pra pagar o expresso simples sem leite porque é mais barato. Ilha grega por ilha grega eu já conheci Salaminas, não é o lugar mais famoso do mundo, mas é bonito, é uma ilha e fica na Grécia. No meu imaginário, aquelas ilhas gregas dos filmes e revistas bacanas de turismo era como caviar, você sabe que existe, sabe que alguém já viu, mas não é ninguém que você conhece.

O ferry-boat entre Atenas e Salaminas sai do porto de Pireus, e de lá também saem os navios elegantes para as tais ilhas gregas, costumo passar por esse porto quase todo dia e vejo dezenas de anúncios com passagens para Ios, Santorini, Creta e toda a elite do supra-sumo do turismo mediterrâneo. Um dia tomei coragem e fui perguntar, como um bom brasileiro, o preço das passagens, queria saber quanto custava o bilhete mais barato para a ilha mais próxima, mas tinha que ser uma das famosas. Para minha grata surpresa, um ticket noturno custava em média 25 Euros, o que na verdade é o preço médio de uma noite num hostel de Atenas. Pensei: se o navio é noturno, eu posso passar a noite viajando, não pago o hostel e fica tudo certo! Por que ir, porque não ir? Fui. Mamãe vai ficar tão orgulhosa, meu chefe nem tanto, afinal, ele não paga um mochileiro para ficar dando voltas em “ilhas gregas” em navio bacana. Calma doutor, se te serve de consolo, estiquei meu saco de dormir no convés do navio e dormi como um anjo ao relento enquanto os turistas de passaporte europeu relaxavam seus corpos em camas “king-size” sob o ar condicionado das cabines luxuosas. Quer saber? Sou muito mais a brisa do mar, a luz da lua e o barulho das hélices.

Na manhã seguinte finalmente desembarquei em Ios, uma das tais e devo dizer, a coisa é chique mesmo, pela segunda vez em poucos dias eu teria um aposento só para mim, uma barraca de 2×2 num camping bacana. O fato de o único banheiro ficar do outro lado do camping pouco importava, papel higiênico não é muito popular por lá e convenhamos, quem precisa de água quente no calor deslumbrante de uma ilha grega? E a ilha? Ah a ilha é realmente fantástica, digo, um pedaço de terra cercado de água por todos os lados, exatamente como dizia meu professor de geografia.

Deslumbrante. E nem é tão caro assim, por 2,50 Euros da pra forrar o estomago com um Kebab sincero. Apertando legal o cinto da até pra arriscar um pulo em Santorini, uma das mais famosas “ilhas gregas” da Grécia que fica há cerca de uma hora daqui. Acho que é exatamente o que vou fazer, mas por enquanto eu vou relaxar o esqueleto na minha barraca presidencial enquanto você baba nas fotos da tal “ilha grega”, elas realmente existem e aparentemente não exigem traje passeio completo!

02 set 2008 Mas nem um obrigado?

Não fosse pelo pequeno porto de Salaminas, talvez a Grécia hoje falasse persa. Falo do incrível combate naval conhecido como Batalha de Salaminas, ocorrido em 480 A.C., quando Xerxes, o rei persa, após a vitória em Tessália e Termopilas decidiu avançar sobre Atenas. Enquanto os espartanos bloqueavam as tropas persas por terra, coube a Temístocles a missão de barrar a frota marítima que pretendia chegar ao continente através do estreito de Salaminas. No pequeno porto da ilha, do lado oposto do estreito cerca de 200 embarcações esperavam os navios inimigos, que apesar de estarem em maior número, não foram capazes de manobrar com eficácia do reduzido espaço do estreito ao serem surpreendidos pela frota de Temístocles. Enquanto os persas perderam cerca de 200 navios, apenas 40 embarcações gregas foram destruídas, obrigando Xerxes a retornar a Ásia, deixando a guerra nas mãos de Mardónio que seria derrotado em 479 A.C. Quase 2500 anos se passaram e o porto de Salaminas parece, aos menos desavisados, apenas um cemitério de navios.

Sem qualquer restauro, a única referência a importância histórica do local é um pequeno monumento inaugurado apenas em 2006, certamente por pressão da Comunidade Européia, mas cuja existência é ignorada até mesmo pelos moradores. Stefanos, que me apresentou o porto, afirma que eu poderia ser um dos primeiros turistas a visitar o local, o que me pareceu um pouco exagerado, mas ao fazer uma busca na internet por imagens do local, a única coisa que encontrei foram desenhos representando a batalha. Pode ser que eu não seja o primeiro estrangeiro a visitar o porto, mas se algum o fez guardou para si a imagem do esquecimento.

29 ago 2008 A periferia e o paraíso

 

Continuo minha jornada pela história mais remota da humanidade, depois de Istambul desembarco em Atenas, capital da Grécia, com a impressão de que esse vai ser um daqueles trechos memoráveis desta viagem. De fato, não precisaria muito mais que o simples fato de estar neste país que mexe com a imaginação de qualquer viajante, amante da história ou das artes, mas o fato é que aqui também vou passar pela minha primeira experiência em Couchsurfing. Pra tornar a aventura ainda mais proveitosa o meu “host” é um figura chamado Stefanos, grego por experiência, mas brasileiro de nascença e de coração que apesar de deixar as terras tupiniquins aos 11 anos jamais esqueceu a língua pela qual demonstra tanta paixão.

 

Stefanos mora numa casa pequena mais incrivelmente confortável em Salaminas, uma ilha há 15 minutos de Atenas via “ferryboat”, por muitos considerada apenas como um subúrbio da capital, mas descrita, com toda razão, como o paraíso pelo meu anfitrião. Confesso que ao descer da embarcação minha primeira impressão era de estar exatamente na periferia de uma cidade feia. A cena é composta por um porto nada atraente, alguns estabelecimentos comerciais e montanhas ao fundo, que apesar parecerem bonitas não são favorecidas pela imagem em primeiro plano. Stefanos sabia disso e sem aviso me proporciona uma das vistas mais deslumbrantes que meus olhos virgens jamais contemplaram.

- Você é um dos poucos estrangeiros que tiveram o privilégio de estar aqui – comenta com um sorriso sincero.

A grande maioria dos atenienses que já estiveram em Salaminas jamais passou do centro comercial, geralmente vão à ilha a trabalho e mal imaginam que logo atrás daquelas montanhas se escondem praias de águas claras cujas cores minhas lentes jamais seriam capaz de captar. Stefanos prefere assim e que pensem um lugar feio, os atenienses. Não passam de “malakas”, e “malakas” não merecem um lugar como esse!