Archive for ◊ agosto, 2008 ◊

29 ago 2008 A periferia e o paraíso

 

Continuo minha jornada pela história mais remota da humanidade, depois de Istambul desembarco em Atenas, capital da Grécia, com a impressão de que esse vai ser um daqueles trechos memoráveis desta viagem. De fato, não precisaria muito mais que o simples fato de estar neste país que mexe com a imaginação de qualquer viajante, amante da história ou das artes, mas o fato é que aqui também vou passar pela minha primeira experiência em Couchsurfing. Pra tornar a aventura ainda mais proveitosa o meu “host” é um figura chamado Stefanos, grego por experiência, mas brasileiro de nascença e de coração que apesar de deixar as terras tupiniquins aos 11 anos jamais esqueceu a língua pela qual demonstra tanta paixão.

 

Stefanos mora numa casa pequena mais incrivelmente confortável em Salaminas, uma ilha há 15 minutos de Atenas via “ferryboat”, por muitos considerada apenas como um subúrbio da capital, mas descrita, com toda razão, como o paraíso pelo meu anfitrião. Confesso que ao descer da embarcação minha primeira impressão era de estar exatamente na periferia de uma cidade feia. A cena é composta por um porto nada atraente, alguns estabelecimentos comerciais e montanhas ao fundo, que apesar parecerem bonitas não são favorecidas pela imagem em primeiro plano. Stefanos sabia disso e sem aviso me proporciona uma das vistas mais deslumbrantes que meus olhos virgens jamais contemplaram.

- Você é um dos poucos estrangeiros que tiveram o privilégio de estar aqui – comenta com um sorriso sincero.

A grande maioria dos atenienses que já estiveram em Salaminas jamais passou do centro comercial, geralmente vão à ilha a trabalho e mal imaginam que logo atrás daquelas montanhas se escondem praias de águas claras cujas cores minhas lentes jamais seriam capaz de captar. Stefanos prefere assim e que pensem um lugar feio, os atenienses. Não passam de “malakas”, e “malakas” não merecem um lugar como esse!

 

26 ago 2008 Why so serious?

Porque tão sério? Eu sei, você estavam morrendo de saudades das minhas super-produções cinematográficas e mal podiam esperar pela nova edição da UP! Bom, a UP! n# 12 já está nas bancas, na capa o ator que estrelou o ultimo filme do Coringa, digo, do Batman. Um filme quase tão bem feito quanto os meus, mas devo confessar que a atuação de Heath Ledger supera até mesmo a brilhante Donna Anna, atriz que estrelou meu ultimo filme em Praga.

Por falar em filmes milionários, queria pedir desculpas pelo espaço de tempo monstruoso entre o vídeo de hoje e o ultimo, acontece que depois de escrever minha coluna pra esta edição da revista eu resolvi me dar umas férias. Não fosse pelo meu chefe que ameaçou cortar meu Yakult semanal caso eu não voltasse ao batente, eu ainda estaria descansando num escritório alugado no centro de Istambul. Mas a vida é dura e cá estou eu de novo, viajando e fazendo filmes bilionários que só aparentam ser caseiros, Enquanto você assiste a obra que vai abocanhar o próximo Oscar eu vou arrumar minhas malas porque tem sempre outro país logo ali!

 

13 ago 2008 A hospitalidade turca

 

 

Sabe aquela reunião familiar de domingo na casa da avó? Um pouco antes do almoço a matriarca da família começa a servir alguns petiscos para abrir o apetite para o generoso almoço que se aproxima. Ai é aquela festa, aquela alegria, todo mundo falando alto, competindo com a música dominical que grita no rádio da sala. E a comida, a comida é para um batalhão, certamente maior que aquele sentado a mesa. Leva-se horas para comer tudo aquilo, e como é gostoso, mesmo a refeição mais humilde tem um sabor especial, é feita com carinho.

Depois de muito papo e muita comida vem a sobremesa que nos prende a mesa por mais algum tempo, o suficiente para que a anfitriã prepare um delicioso café, geralmente acompanhado de biscoitos, que mesmo comprados em hipermercados parecem ter saído das mãos daquela que serve. E lá está você, comendo novamente, os músculos da sua boca doem, não de comer, mas de falar e rir principalmente. Quando decide se retirar da mesa, a essas alturas já estamos no meio da tarde, sente que seu corpo não está totalmente de acordo com a decisão o que te leva a permanecer sentado, pelo menos por mais alguns minutos, até que seu organismo se entenda com seu cérebro. Era tudo que sua avó queria, em questão de micro segundos a mesa está vazia e limpa, dando a sensação de que a batalha terminou e apesar de algumas avarias você vai sair vencedor, forte e satisfeito, satisfeitíssimo. Eis que vem outro golpe, enquanto você fecha levemente seus olhos, numa espécie de descaso espiritual, a mesa milagrosamente se enche novamente, apenas algo para beliscar, um cafezinho da tarde, sua avó pede desculpas, pois ta faltando aquele bolo de maça que a neta mais nova adora. Você está lá tentando imaginar onde ela colocaria o tal bolo em meio a tantos outros.
No que você está pensando? – pergunta minha amiga Laura, uma italiana que conheci no aeroporto de Istambul. Estava de férias, visitando algumas amigas da Turquia, e havia me convidado para um jantar na casa de uma delas.

Já vi essa cena antes - respondi enquanto beliscava mais um pedaço de Baklava, um doce maravilhoso, servido quente, perfeito para acompanhar um café turco. Desisto – pensava chegando a conclusão de que meu pequeno e fraco corpo não aceitaria nem mais uma grama de comida. Eis que todas se levantam da mesa e começam a recolher a louça e o resto de comida que ainda restava depois de horas. Finalmente o jantar tinha chegado a seu capitulo final. Laura ainda estava sentada a mesa, imóvel, quando me levanto recolhendo alguns copos e talheres da mesa. Laura me olhava com cara de reprovação, interrompido por um grito que vinha do corredor: Não faça isso, você é visita – decretava a anfitriã – Você nunca ouviu falar da hospitalidade turca?

Não teve conversa, depois de alguma tentativas tive que me contenatar em ficar sentado no sofá com mais um ou dois pedaços de Baklava na minha frente, exatamente como na casa da minha avó!

05 ago 2008 É fantástico!

 

Lembro de certa vez, em uma entrevista, Zeca Camargo, um homem que conhece tantos países quanto um papa ou um presidente brasileiro, ter dito que sua cidade preferida é Istambul, a maior da Turquia. Ficava imaginando como um cara que certamente conhece lugares como Paris, Barcelona, Nova Iorque ou Tóquio poderia eleger tal cidade como sua favorita. Não me recordava até então, certamente por desatenção, de nenhuma outra referência mais acalorada sobre o lugar em questão, mas confesso que o depoimento do jornalista ficou na minha memória, se um dia tivesse a oportunidade gostaria de conhecer Istambul.

Durante essa viagem tive algum contato com a cultura turca, muito presente nos países do sul da Europa principalmente, entre um kebab (vou sentir saudades desse paraíso em forma de sanduíche) e outro acabava por ouvir histórias maravilhosas da cidade que um dia foi o centro do império romano. De forma curiosa, quanto mais me aproximava de Istambul, mais turcos eu conhecia. Já em Budapeste, nas finais da Eurocopa tive a oportunidade de assistir a uma partida entre Alemanha e Turquia. Alguns desavisados, vendo a festa que os turcos faziam pelas ruas após o jogo, jamais apostariam que era a Alemanha que seguiria para a grande final. Eis algo que me agrada, a paixão alegre pelo futebol, certamente todo turco tem um pouco de Corinthians no coração. Istambul a essa altura era um destino da qual não me permitiria dispensar. Num misto de preguiça e sorte, duas coisas que não me faltam, decidi trocar 25 horas de trem que separavam a Romênia de Istambul por uma hora de vôo confortável que ao fim me permitiu o privilégio de ver de cima a gigantesca cidade com suas mesquitas e palácios divididos pelo canal que define também a fronteira entre a Europa e a Ásia, lá estava, bem debaixo dos olhos urbanos deste viajante que vos escreve.

Precocemente, mas sem nenhum receio de errar, ainda no avião, me esquivando momentaneamente de tentar entender mais uma dessas línguas que nos fundem a cuca, pensava novamente no apresentador do programa de domingo, e num desses momentos de sabedoria infame que subitamente nos tomam o pensamento, penso num encontro com Zeca Camargo para soltar a pérola sobre Istambul: é fantástico!